Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

dona-redonda

dona-redonda

Alcino do Fundo Lopes


redonda

Nasceu a 3 de Fevereiro de 1925 em Argozelo, concelho Vimioso, distrito de Bragança, filho de Abediel Victor Lopes e de Gracinda Luís do Fundo. Seria então uma aldeia muito isolada pelo Inverno rigoroso. Quando foi possível registá-lo na Conservatória em Vimioso, para se evitar a multa, foi indicada outra data, mais de um mês depois, 8 de Março.

      Tinha um irmão mais velho que morreu com sarampo quando ele era bebé. Teve outro irmão a seguir a ele que morreu em bebe, e um irmão mais novo catorze anos que sobreviveu. Eram tempos duros.

       O seu pai comerciante de peles andava pelas feiras e também se terá dedicado ao contrabando - Espanha ficava muito perto (nessa altura pelo Alentejo o meu trisavô Pepe era guarda de fronteira).         Uma vez que acompanhou o pai a uma feira este comprou-lhe uma bola, mas quando regressaram a casa, a sua mãe condenou o gasto deitando a bola fora.

      Teve uma avó paterna que o amava e mimava, mas morreu cedo de escorbuto.

      Fez o liceu em Bragança. Uma vez, conseguiu acompanhar uns soldados numa caminhada de 5 kms para o regresso a casa.

       Entrou na Universidade, na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa. A viagem de comboio levava um dia. Tinha pouco dinheiro e correu as ruas da capital em busca de pensões próximas e com as melhores condições. O curso era difícil e tinham de ficar a estudar enquanto viam estudantes de Direito a irem para o cinema de tarde. Coincidiu o seu tempo de faculdade com a 2ª Guerra Mundial e com o racionamento. Nas pensões a comida era pouca e má. Com 1,72 pesava quarenta e tal quilos. Por isso foi rejeitado para o Serviço Militar.

      Houve uma vez em que com um primo que também estudava em Lisboa, responderam a um convite que era para dois professores da Universidade  (e não para eles) e foram a um almoço memorável no Hotel do Luso.   

        Obtida a licenciatura trabalhou em Lisboa num Laboratório na pasteurização do leite. 

      Conheceu a minha mãe e casaram (depois de duas marcações falhadas e a recusa do Padre porque o meu avô que queria uma nora da terra enviava um telegrama dizendo-se doente, a morrer, sem o estar).

     Contou a minha mãe como se conhecerem, que se "zangou" porque no Eléctrico ele ia virado a olhar para ela, mas depois comentou com uma amiga que tinha gostado dele. Foi pela janela com sinais que lhe pediu depois em namoro (os dois muito bonitos, como actores de cinema).

       Depois de casada, em viagens a Argozelo a minha mãe viu neve e uma vez um lobo (quando era criança uma das razões para gostar de ir a Argozelo visitar os meus avós era ver como o meu pai parecia mais novo ao pé deles).

       Ia muitas vezes a chamadas (algumas vezes levava uma ou duas das filhas com ele, se fosse de tarde). Teve sucessivamente vários carros, Ford, Fiat e BMW. Quando chegava a casa buzinava e quando éramos crianças íamos a correr ter com ele.

       Contou-nos como tirou a carta de condução - o Engenheiro soube que ele era Veterinário e começou a conversar com ele, não sei se para o consultar, e sobre a condução colocou-lhe uma questão, o que fazer se à sua frente se atravessasse uma bola? A resposta era travar porque atrás viria uma criança.  

        Concorreu a veterinário municipal e ficou colocado em Paços-de-Ferreira, depois em Gondomar. 

             Os meus pais apenas conseguiram ter um bebé, a minha irmã Isabel, cinco anos após se terem casado. A primeira neta dos dois lados, um milagre. Depois seguiram-se mais duas, Gabriela e Ângela. Antes das filhas, nos fins-de-semana, passeavam à volta de Passos-de-Ferreira. Às vezes iam visitar uns tios a Penafiel. Iam a uma confeitaria lanchar, o seu bolo preferido seria na altura o bolo de arroz, e tiravam fotografias.     

         Teve cancro, passou por duas cirurgias, quase morreu (eu era muito pequena na altura e não soube como tinha sido grave).

          Viveu num apartamento arrendado em Paços de Ferreira e na casa de função em Gondomar.  Aos 52 anos comprou uma casa no Porto.

      

      Era muito dedicado ao trabalho. Ia a chamadas de noite e ao fim-de-semana e não tirava férias, apenas alguns dias para as visitas no Verão a Lisboa e a Argozelo.

 

      O meu pai, um homem inteligente, bonito e bom, marcado pelo que passou, pelas pessoas não muito boas com que infelizmente teve de lidar. 

       Gostava de História, especialmente da História de Portugal. Acho que chegou a dar aulas em Paços de Ferreira. Gostava de ir ao café ao fim-de-semana e a seguir ao jantar durante a semana, e ficar lá na conversa com o seu grupo de conhecidos. Gostava de ler o jornal e de pasteis de nata e de bifes.

        Teve um AVC com 89 anos, mas em parte recuperou. Estava frágil, física e mentalmente. Caiu, magoou-se na cabeça e foi para o Hospital, em tempo de Covid, quando não o podíamos acompanhar na Urgência ou visitar na Enfermaria. Melhorou do traumatismo, mas apanhou uma pneumonia bacteriana. Permitiram-nos duas visitas para despedida e morreu pouco depois da segunda, no dia 28 de Julho de 2020 (ainda às vezes não parece verdade e sentimos muito a sua falta).

  

 

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2. 12º Tema: Cada um come onde quer e repete se quiser!


redonda

Cada um come onde quer e repete se quiser!

 

Cada um come onde quer

e repete se quiser

E se houver.

Quando sou eu que cozinho,

quero acertar nas quantidades

para que não falta, nem sobre

 

Sento-me à mesa por último,

e levanto-me primeiro,

vou reparando se tem saída

 

se fiz pouco ou estão a comer mais,

como menos para que chegue,

se sucedeu o contrário,

como mais para que não fique

 

e quando não sou a cozinheira

tento não ter mais olhos que barriga

 

Para completar texto, segue receita do arroz de bacalhau que foi hoje o jantar para quatro:

- coloquei as duas postas de bacalhau congelado com a pele por cima, alho esmagado e um pouco de azeite, água a ferver por cima - depois tirei a pele e espinhas;

- estrugido ou refogado - cebola e alho picados e azeite, pedacinho de pimento vermelho, tomate triturado, vinho branco, água, bacalhau, arroz, sal, pimenta, óregãos e coentros, e arroz (não sobrou nada :).

 

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.11º Tema: Actualizem-me por favor


redonda

Actualizem-me, por favor! 

 

Como escrever um texto em que peço para ser actualizada quando a maior parte do tempo acho que o estou ser, e na menor, penso que não o quereria ser.

Poderia ser um actualizem-me, por ter entretanto aparecido um  medicamento a curar todos os casos em menos de 24 horas, sem sequelas nem efeitos secundários.e ser tão fácil de fazer que rapidamente chegava a todo o lado.

Entretanto, e na sequência de post anterior na dona-redonda.blogspot posso trazer para aqui também enquanto actualização, recente constatação, além de mais gordinhos estamos a ficar também mais cabeludos. 

E se isto continuar assim e não voltarem a abrir os consultórios de estomatologistas também iremos ficar desdentados.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.10 Tema: Não tenho tempo para te aturar


redonda

Não tenho tempo para te aturar

 

Talvez tenha ouvido isso quando era criança, mas seria meio a brincar.

Não me lembro de alguma vez o ter dito a alguém a sério, talvez possa tê-lo dito também a brincar.

Sobre o tempo é engraçado como desde o isolamento social voluntário (desde 12 de Março) em que passei a trabalhar, e muito menos, em casa, se primeiro me pareceu que tinha muito tempo, depois, fui enchendo os dias com o habitual, ainda que em ritmo mais lento, e parece-me que fiquei na mesma sem tempo.

Por isso ainda que continuando a gastar o tempo e não o tendo, vou tratar de arranjá-lo para aturar todos os futuros, imaginativos e desafiadores desafios de escrita dos Pássaros :)

Desafio de Escrita CNEC 20/48 - 4/10 A Mensagem


redonda

 

Primeiro era só uma suspeita.

O dinheiro era pouco e tinha tido de alugar um quarto. Passara a ter um hóspede. Recomendara-lhe que dissesse aos vizinhos que era seu primo. Não podia dar motivo ao senhorio para a despejar e sabia que não podia sub-locar. Estava lá escrito no contrato. Nunca antes vivera com um estranho. Preferiria que fosse uma mulher. Mas quando se precisa não se pode escolher.

Ele dissera-lhe que trabalhava numa empresa. Divorciara-se recentemente e a mulher ficara com a casa. Era muito fechado excepto quando falava na ex-mulher: “Ela nunca trabalhou, só gastava o dinheiro dele e com outros homens.” Pingava ódio das suas palavras, os olhos ficavam-lhe mais brilhantes e pequenos atrás das lentes grossas.

Veio então a noite em que chegou muito tarde, quando ela já estava deitada. Ouviu‑o a lavar-se e a pôr de seguida a roupa que trazia na máquina de lavar. Na manhã seguinte comentou, melhor, determinou, que a partir dali ela não entrava mais no quarto dele, seria ele a limpar o quarto. Para se assegurar, fechava-o à chave quando saía.

Sobre a ex não disse mais nada, além de que desaparecera. E disse-o com um meio sorriso.

Ele não sabia que ela tinha outra chave e um dia não resistiu. Quando ele saiu para o trabalho foi lá. Parecia tudo em ordem, até que reparou que havia sangue nuns sapatos dele. Ele tinha morto a ex-mulher!

Nessa altura ouviu que ele regressava, ter-se-ia esquecido de alguma coisa. Não ia ter tempo de sair.

O bip de uma mensagem fê-lo parar na entrada e ele ir vê-la, deu‑lhe o tempo que precisava para sair e fechar a porta do quarto.

Também por mensagem chamou ela a polícia e fugiu da sua casa até que o prenderam.

Hóspedes assim nunca mais.

 

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.9: Tive uma ideia


redonda

 

Tive uma ideia

(mini-mini texto com memórias)

 

Quando eu era criança, uma vez fui ver com a minha mãe a definição de "Idiota" num Dicionário e, entre outras, estava lá: "alguém que tem muitas ideias".

Tornou-se depois algo entre nós, se eu dissesse que tinha tido uma ideia ou alguém o dissesse, responder-se que era muito idiota, brincando com o outro sentido.

CNEC 48/20 - 3/10 A Professora


redonda

 

Gémea da feiticeira da Branca Neve, não da bruxa, mas da rainha madrasta, na beleza e severidade. Não sorria, não revelava qualquer enternecimento pelas ervilhas a seu cargo. A sala dividida para a 1ª e para a 2ª classes, num Colégio de Padres, reguadas permitidas, e a ameaça de ser levado ao sério-severo Padre-director para os reincidentes impenitentes.

Não tive infantil, por minha culpa – com dois anos insistiu a Educadora que poderia ficar com a minha irmã de cinco. Desatei num choro mal me vi abandonada. Deixou‑me à porta para dar a aula e fechei-os à chave na sala. Um aluno herói teve de pular pela janela para os libertar. Na saída, a Educadora concordou com a minha mãe, eu era muito pequena.

Aos seis, estava entusiasmada com a primeira classe. Finalmente ia aprender a ler e a escrever: pá, pé, piu, pua, pipa, pópó, pai e papá, a tia, tua tia, titi, a tia tapa o pote.

Aventuras sucessivas e intensidade face ao hoje descolorido, mas serão mais fáceis os dias com menos variações.

No então, castigava a Professora cada erro do ditado com uma reguada. Na sala o Nuno triste levava às vezes vinte, o Mário sorridente, nenhuma.

Ensinou-me a Paula como escapar à hora da tabuada. Já sabia até à dos cinco, mas seria uma aventura. Era só preciso antes pedir para ir à casa de banho. Pedimos as duas, fugimos as duas. Enganámos a bruxa-feiticeira, mas lá fora, sozinhas, nada acontecia.

Talvez fosse só professora, rodeada de bruxinhos alunos, barulhentos, infantis, a repetirem os erros uns dos outros, ano após ano, monotonia e cinzentismo, não era o que esperara, feiticeira desencantada.

Com ela aprendi a escrever e a ler, primeiro as legendas na televisão, depois os livros, os cinco e os sete e todos os outros.

estado_novo.jpg1classe_capa.jpg  O-Livro-da-Primeira-Clae (1).jpgTopPortuguês.jpg

CNEC 48/20 - 2/10 - Com o P.D.


redonda

 

 

O mundo estava a passar por uma pandemia e fora deliberado o isolamento social para conter a contaminação e adiar o surgimento de casos mais graves.

Os mais frágeis deveriam ficar em casa. Os demais, sem trabalhos na saúde ou na alimentação aí deveriam permanecer, saindo apenas para comprar alimentos.

Sara tinha reservas de comida e de papel higiénico, e estava em casa sem sair há três dias, quando pensou que deveria comprar enlatados.

No entanto, no seu T1 de trinta metros quadrados, faltava espaço para os guardar.

Calhou reparar então nas garrafas de vinho que o seu ex deixara para trás quando resolvera juntar-se à amante. Prometera-lhe que os viria buscar e ela não duvidara sabendo como ele acarinhava a sua coleção, o tempo que passava a olhar para as garrafas, sendo que só em ocasiões muito especiais, é que abria uma. Comprara para as guardar um armário especial onde ficariam muito bem latas de salsichas e feijão.

Ainda pensou em ligar-lhe, mas sabia qual seria a resposta e se ele atendesse. Iria adiar, não se atreveria a sair para vir buscar as garrafas. Seria melhor nem falar com ele. Custou-lhe abrir a primeira garrafa e despejar o seu conteúdo na banca. Continuou a fazê‑lo e talvez algum do álcool tivesse vindo preencher e desinfectar o ar à sua volta – cheirava muito a vinho. Resolveu provar um copinho de cada.

Abria, enchia o copinho, bebia-o, tentando comparar com o anterior, despejava o resto do conteúdo e passava para a garrafa seguinte. Era até divertido. Riu-se. Percebeu então que não estava sozinha. Bem de mansinho o Pato Donald tinha entrado na cozinha e sentara-se num banquinho ao seu lado. Ofereceu-lhe um copinho, contou-lhe como fora a sua personagem preferida. Riram os dois contentes com a companhia.

Resolveu deitar-se e adormeceu.

CNEC 48/20 - 1/10 - Um olhar


redonda

Eram quinze para a meia-noite, de um Domingo chuvoso, quando teve de sair. O seu cão Jolie já lhe dera dois ou três latidos de aviso.

Estava frio lá fora, mas andar aqueceu-o.

Já no regresso, o Jolie insistiu em que seguissem pela direita. Perto do Posto de Abastecimento reparou no casal junto a um carro preto, de faróis ligados. Ele enchia o depósito, ela próxima dele, imóvel. Não falavam. O Jolie, normalmente afável com todos, mesmo com estranhos, rosnou baixinho na direção do homem.

Só por acaso o seu olhar encontrou o dela e leu nele um pedido de ajuda.

Não sabia o que poderia fazer. Ele o Jolie estavam já os dois entradotes.  Fixou a matrícula, tentando decorá-la. Percebeu que atraíra a atenção do homem. Ele posicionara-se à frente da mulher, escondendo-a com o volume superior do seu corpo.

- Você quer arranjar problemas?

- Não senhor, não quero.

- Então, ponha-se a andar!

Algo lhe deu coragem para permanecer e responder-lhe:                        

- Mas a senhora vem comigo.

Tinha a mão direita enfiada no bolso do impermeável, agarrou a pequena lanterna que lá guardava e empunhou-a, fê-la visível como uma arma. Percebeu que o outro hesitava, até que agiu. Empurrou a mulher para cima dele. Meteu-se no carro e arrancou.

Quando a mulher foi empurrada na sua direção quase caíram os dois. Depois ela abraçou-se a ele a chorar. O carro era dela e estava a ser vítima de um assalto ou algo pior. “Salvou-me” disse ela. “Salvou-a”, confirmaram os agentes da polícia quando chegaram e identificaram o individuo como perigoso.

Nessa noite demorou menos a adormecer e comentou antes com o Jolie, “salvámo-la.”

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.8 Foi tão bom não foi


redonda

Foi tão bom, não foi

 

Em tempo de recolhimento, quarentena, interrupção nas vidas, ruas vazias, à excepção de filas espaçadas de pessoas algumas de ar assustado ou com máscaras, à frente de mercados e farmácias, notícias e imagens assustadoras e tristes, se chegasse o fim, o que gostaria de lembrar porque foi bom, sem estar necessariamente por ordem:

- Viver com os meus pais e irmãs e avó, e sentir que gostavam de mim como eu gostava deles;

- Brincar (aqui podendo incluir também os jogos e o tempo da plasticina e de pintar, do triciclo e da bicicleta);

- Aprender a escrever e ler, como se também fosse um jogo, e tudo o mais que gostei de aprender na escola;

- Andar,

- Ver televisão, ouvir música, ir ao cinema e algumas vezes ao teatro, uma vez à ópera;

- Aprender e ser capaz de nadar;

- Explorar instrumentos musicais, conseguir tocar alguns, mesmo que mal, algumas danças de salão, tirar a carta de condução às vezes conduzir, pintar;

- Apaixonar-me e ser correspondida, namorar;

- Passear por Portugal, viajar para outros países;

- Escrever e ler;

- O meu trabalho, muitas vezes;

- Comida e começar a cozinhar;

- Estar com a família e amigos;

- Uma última alínea para o que não me ocorre agora, mas deveria estar aqui, como descobrir mundos novos;

desafio de escrita dos pássaros #2.7 O meu Elogio Fúnebre


redonda

Elogio Fúnebre

 

 

Maria X morreu com a bonita idade de duzentos e noventa e três anos (quando já todos começavam a pensar que não havia maneira de o fazer) e não parecia fisicamente mais de quarenta (ou trinta e cinco, como perentoriamente afirmava).

 Já de cabeça (estava cada vez mais chata) gostava de recordar os “bons velhos tempos” em que todos tinham telemóvel e andavam de carro (e havia muita poluição) em vez de bicicleta.

A sua vida e existência foi importante, como para a aprovação recente da Eutanásia.

E teve uma boa morte, depois de ter viajado duas vezes à volta do mundo, tendo estado em quase tantos países como aqueles que existem – não podendo ir obviamente aos que já não existem, e também não querendo ir àqueles mais instáveis ou perigosos para os viajantes – plantou várias árvores, teve várias aventuras, descobriu o segredo da felicidade, da vida após a morte, e de todas as doenças, escreveu alguns livros, e depois dos duzentos e trinta, teve três filhos que a visitavam com frequência, e a acarinhavam (mas também só conviveram com ela menos anos e os últimos não muito perto.

Que repouse em paz.

 

Desafio dos pássaros 2.6 “oh não, um vírus outra vez!”


redonda

 “oh não, um vírus outra vez!”

 

 Já não me lembro muito bem de como foi o anterior, mas tenho quase a certeza absoluta que não foi tão alarmante como este está a ser.

Sinto a pairar sobre nós uma nuvem cinzenta cada vez maior e mais escura.

Primeiro estava na China e pareceu quase um filme, até pela rapidez anunciada e concretizada na construção de um Hospital.

Depois foi-se aproximando, Itália, Espanha, e chegou cá.

Invadiu os telejornais, os jornais, as revistas e as conversas. Discute-se sobre a linha de apoio, planos de contingência, hospitais esgotados, quarentenas voluntárias, enquanto crescem os casos confirmados – para já serão nove, e os casos suspeitos não validados.

Cancelam-se voos e viagens eventos são adiados.

Fala-se sobre a prevenção – ouvi dizer que beber muita água e chá de erva doce ajuda, mas ainda não fui comprar o chá. É importante lavar as mãos, desinfectar tudo com lixivia. Evitar espaços fechados com muitas pessoas, cumprimentos e proximidade, e tossir para os cotovelos. Ligar para a linha de apoio se tivermos febre alta, tosse e/ou dificuldade respiratória.

Sinto-me já ligeira e hipocondriacamente resfriada.

Com a minha sorte se apanho isto, será já quando não há quartos livres, ainda terei de ir para uma tenda improvisada, sem livros, e poderei passar a seguir para outro plano mais quente. O que não queria era contagiar ninguém.

Por isso espero que descubram depressa um remédio e uma vacina.

 

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.5


redonda

Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia.

 

 

Acordei e ouvi vozes, a minha avó a conversar com a minha mãe. Levantei-me e fui ter com elas.

Para que o Mundo possa permanecer quase tal como é, não me disseram como é o depois, apenas que existe um, mas não foi preciso dizerem-me para que ficasse então a saber, que não perdemos ninguém, permanecemos ainda que tenuemente ligados, e como haverá um reencontro, existe um sentido.

No resto do dia poderia fazer o que faço sempre, poderiam ter continuado comigo, ou poderia ter sido apenas uma visita breve, sem explicação, mas real.

A minha avó morreu quando eu tinha onze anos e depois dela houve outras perdas, mas aqui estou sobretudo a escrever sobre a primeira.

Quando acontece, o mundo vai ficando mais feio e vazio, e perco também os pedaços de mim de como era com eles, como deixei de ser neta quando deixei de ter avós.

O que mais desejava é esse reencontro ou enquanto estou viva, saber que é possível, que vai suceder, ter esperança ou fé.

IMG_0042.JPG

Desafio de Escrita dos Pássaros, 2.4 O Google está errado


redonda

O Google está errado

 

Como o Google está errado???

 

O horror toma posse de mim.

Em choque e incrédula continuo a escrever.

 

Errado, o Mago super sapiente a quem recorro sempre em primeira e última instância?!!!

Quando quero saber mais sobre algum facto histórico, cinema, músicas, pinturas, livros, ter a certeza sobre como se escreve uma palavra – antes e após acordo ortográfico – traduzir de outra língua uma palavra ou um texto, dicas sobre receitas de cozinha, lavagem de roupa, doenças e medicamentos, perder tempo com notícias que não interessem a ninguém, encontrar o endereço para blogues, etc. etc. errado?!!!

Mas, Ele sabe sempre tudo!

 

Pequena pausa porque me ocorreu grande ideia, vou perguntar ao Google o que é Ele acha disto e já volto (…).

 

De volta e já mais tranquila: pode ter havido erros, mas o Google corrigiu-os e corrige-os.

Estamos salvos. Posso respirar de alivio de novo.

O Google pode errar de vez em quando, sublinhe-se, muito de vez em quando, de certeza, mas Ele corrige! Merece que continue a confiarmos Nele, a deixar-nos guiar por Ele!

 

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.3 Manual para iniciar relacionamentos


redonda

Manual para iniciar relacionamentos

Para começar deite fora todos os manuais, inclusive este… mas só depois de o ter lido

REGRA PRIMEIRA, MAIS IMPORTANTE E ÚLTIMA

Não há regras, não há manuais.

Podem-se iniciar relacionamentos de mil e uma maneiras…

mas a ser assim…. então talvez se possa conservar algum manual ou manuais que se tenha, porque por sorte podem coincidir no que dizem com uma das mil e uma maneiras de se iniciar um relacionamento

(bem mais importante do que o iniciar, pode ser o como terminar ou como manter um relacionamento).

Em princípio, para iniciar um relacionamento poderá ser boa ideia não ficar em casa, excepto se a nossa casa for frequentada por alguém com quem queiramos iniciar um relacionamento, (mas o que estaria lá a fazer sem que tivéssemos já um qualquer relacionamento?)

Ocorreu-me agora que também se podem iniciar relacionamentos através da Internet. Como tendo blogues, participando em desafios de escrita, etc., e aí em princípio poder-se-á estar em casa.

Portanto ir lá para fora (esquecendo o que consta dos anteriores parágrafos) e estar disponível, arriscar, querer de verdade conhecer alguém que também esteja interessado em conhecer-nos (excepto se for um psicopata assassino)

Poderá ser o início de uma bela amizade.

Outras ideias, como ouvi hoje ou melhor ontem, arranjar um cão e ir passeá-lo, ir assistir a um jogo de futebol e dizer mal da equipe dos adversários, excepto se só tivermos conseguido um lugar no meio deles, e sair com amigos que trazem outros amigos.

Por fim, irei revelar aqui e pela primeira vez, a regra de ouro que nunca falha para se iniciar relacionamentos que é:

 (já não vai ser possível porque excederia o limite de palavras, só por isso)

Como consigo com grande sucesso assustar-me a mim mesma


redonda

Algo que ninguém deverá pensar em experimentar fazer porque o susto é mesmo ENORME

 

Comecemos por ir ao El Corte Inglês antes do Natal.

Tudo normal, mas na saída informam-nos que não vai ser necessário pagar ou validar o talão, estão a oferecer o Parque (ou aquilo está tão cheio que é uma manobra para sairmos de uma vez e deixarmos que vão descansar).

Qualquer pessoa consciente deitaria o talão do parque fora, certo?

Claro que eu me esqueci de o fazer.

Em nova ida ao El Corte Inglês já em Janeiro, fui guardar no mesmo lugar na carteira o novo talão e na altura de pagar, troquei os talões sem me aperceber e eis que me aparece para pagar de parque:

285,00 €

quase que caí para o lado ali mesmo

(e fiquei ao mesmo tempo sem raciocinar minimamente porque ainda não tinha metido lá na ranhura o meu cartão El Corte Inglês mas na minha cabeça comecei logo a pensar que me iam debitar o dinheiro no cartão, em choque completo...entretanto, ainda não deitei fora o cartão de Dezembro, quanto é que será que iriam cobrar em Fevereiro?)

Desafio de escrita dos pássaros #2.2 É que isso de médicos, nunca fiando


redonda

É que isso de médicos, nunca fiando

 

Em casa de ferreiro espeto de pau.

 O que fará um médico quando fica doente?

Vai ver a bruxa, marca uma consulta com o Prof. Mambdu ou assalta outro médico, onde calha de o encontrar, num restaurante, no meio de um jantar romântico (agora pelo dia 14/2) no elevador ou no parque de estacionamento escuro e vazio: “Colega tem um minuto? É que estou aqui com uma dorzita…”

Desconfio que serão como cada um de nós, de todas as cores e feitios, a evitar exames e consultas há não sei quanto tempo, mas já foram anos? Ou hipocondriacamente a correrem para novas consultas: este sinal aumentou 0,000002 mm, não será de fazer alguma coisa?

Talvez também cometam o erro de ir à net quando suspeitam de algo de outra especialidade,  e saiam de lá com a convicção profunda que, ao invés de uma maleita tropical apanhada sem dúvida nas férias do ano passado. ou no anterior, quando até foram a outro Continente (não o do Hipermercado), têm é cinco ou seis doenças inoperáveis e mortais.

E como serão os seus congressos? O que é que oferecem por lá? Férias e medicamentos? Ou um cafezinho em copo de plástico e por 0,70 €?

Será que há médicos a lerem isto?

Se por acaso assim for, tenho o maior respeito pela vossa classe, até poderia ter tentado ser médica (se a ideia de memorizar nomes de doenças, químicos, e procedimentos não me assustasse e ver sangue ainda mais – até quando doava não olhava) e estou anónima - e se algum souber quem escreve neste blogue, não sou eu, algum personagem estranho abeirou-se do computador enquanto eu dormia ao lado, sem me querer ir deitar antes de escrever o texto para o Desafio - escreveu isto e enviou, - que chatice! mas o importante é lembrar: não sou eu (mas conta para o desafio).

desafio de escrita dos pássaros #2.1 Acho que a coisa não vai correr bem


redonda

Adoro conduzir

Excepto...

Se estiver a chover muito, com má visibilidade e lençóis de água;

Se estiver tanto vento que faz com que carro estremeça;

Se estiver tanto nevoeiro que ao mesmo tempo receio bater no da frente e levar com o que vem atrás;

Se não conheço o caminho;

Se apanho com o sol de frente;

Se é de noite, e está tudo escuro;

Se levo passageiros (gosto de dar boleias mas fico muito preocupada com a sua segurança e em não fazer nenhuma asneira à frente dele(s) como subir um passeio ao estacionar);

Se no Inverno o aquecimento de carro está avariado;

Se a rádio é que avariou e não tenho música;

Se está muito trânsito e passo o tempo em pára e arranque;

Se estou engripada ou constipada ou com dor de cabeça;

Se estou atrasada;

Se tenho de andar às voltas à procura de sítio para estacionar;

Se as ruas estão cheias de pessoas, muitas delas distraídas a atravessarem sem olhar;

Fora estas pequenas situações (para já o que me lembro) adoro conduzir!

 

MAS

 

Devo admitir que nem sempre foi assim e cheguei a pensar que nunca iria ter a carta de condução.

As aulas de código e o exame escrito correram bem, os dois exames, porque entretanto com dois chumbos na condução, prescreveu o primeiro e tive de o repetir.

Mas quando ia começar as aulas de condução e deparei com o meu Instrutor pensei para mim "acho que a coisa não vai correr bem".

Calhou-me um professor com certa idade, extremamente calado e que poderia já estar cheio de dar aulas, sobretudo a uma aluna sem jeito nenhum, como eu.

Fixei a expressão que mais utilizou comigo: "Mexa-me esses braços" - como nos estacionamentos, e eu até queria mexê-los só não sabia muito bem para onde virar o volante.

A única vez em que foi mais simpático, foi quando um condutor que incrivelmente seria mais azelha do que eu, veio contra nós e nos bateu. Nessa altura fui promovida da aluna incompetente a possível testemunha. Foi um momento lindo.

Entretanto, a coisa não correu mesmo bem porque chumbei no exame, mas consegui um professor mais simpático e... chumbei de novo. E à terceira, com um instrutor intermédio na simpatia, passei! (já não deveriam querer ver-me lá de novo e passaram-me).

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 17º Tema - Luz e sombra


redonda

Luz e sombra

Para haver sombra tem de haver luz, senão cairíamos na escuridão, tão completa que nada conseguiríamos ver.

O tema fez-me pensar na pintura, em como através do sombreado se consegue o volume, a dimensão.

Desde criança que achava que conseguia desenhar alguma coisa (completamente iludida, claro). Ainda no liceu descobri uma casa na Rua Sampaio Bruno onde vendiam telas e tintas. Fui lá com a minha mãe pelo menos uma vez, outras vezes sozinha. Para se entrar, tínhamos de passar primeiro por um corredor barbearia, com duas ou três cadeiras onde o Barbeiro atendia senhores e não sei se não parava por lá também um engraxador, com a caixa de madeira com o assento para o cliente e lugar para guardar a graxa e escova.

Subíamos por degraus de madeira inclinados e lá em cima, numa sala pequena cheia de luz, estavam as telas e tintas, todas bastante caras, mesmo com o desconto de estudante.

Fui para as mais baratas e fiz alguns retratos em pastel. Depois tentei o óleo mas comprei uma única tela e pequenina. Tentei pintar um céu, mas não correu lá muito bem. Planeei pintar por cima alguma outra coisa, até hoje.

Bem mais tarde, inscrevi-me num atelier de pintura indicado por um amigo. Primeiro ficava em Leça, perto de uma Casa Museu que fui visitar. Depois mudaram-se para uma casa antiga no Marquês – também com degraus de madeira inclinados e uma sala com muita luz e cheiro a tinta.

Adorei as aulas sobretudo pelos professores e pelos colegas  - chegámos a ter um jantar com disfarces no dia das Bruxas e uma exposição pelo Natal.

Tentei pintar uma dona-redonda e não correu lá muito bem, e depois, a partir de uma fotografia, um auto-retrato, com um resultado final ligeiramente melhor (pudera, tinha a fotografia aumentada).

Talvez um destes dias volte a tentar pintar e me lembre da luz, da sombra e deste desafio.

017.JPG