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dona-redonda

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Desafio de Escrita dos Pássaros, 7º Tema - Máscara de compota

redonda, 25.10.19

A Constança precisava duma máscara capilar e veio ter comigo porque sabia que eu andava a vender qualquer coisa.

Eu disse-lhe: “Constança, o meu patrão só quer que eu venda compota de abóbora com amêndoa.

E ela respondeu-me: “Está bem”.

Foi o inicio de uma bela amizade porque clientes assim não são fáceis de encontrar.

Ela perguntou-me o que achava de ela usar a compota de abóbora com amêndoa como mascara capilar.

Lembrei-me da coca-cola que era para ser um xarope, e disse-lhe para ir em frente.”

E ela foi.

Não resultou assim muito bem, o cabelo ficou um bocado pegajoso, mas pelo menos cheirava muito bem a abóbora e a amêndoa.

Como agora somos amigas e já era hora, fomos almoçar juntas. Não sei bem porquê mas apeteceu-nos às duas sopa de abóbora e tarte de amêndoa.

Contei-lhe do Desafio dos Pássaros e ela ficou muito interessada, as duas vamos agora aguardar para ler o que foi escrito pelos desafiados…

Tema 6 - O amor, uma cabana...e um frigorífico

redonda, 18.10.19

 

 

A nossa primeira viagem não foi bem o que estava à espera.

O Paulo vendeu-me tudo como um sonho, os dois e uma choupana, no meio da natureza…que mais poderíamos desejar?

Eu que andava meio desconfiada que ele queria desviar os nossos subsídios de férias para o televisor de ecrã panorâmico de não sei quantas polegadas, “assim vejo a bola em casa, fofa”, e “está em promoção, é uma oportunidade única”, até fiquei aliviada. Afinal sempre íamos ter férias. Burra. Mas que férias?!

Seguimos para lá no jipe do avô dele, que não estava lá muito bem e não durou muito depois, o jipe, claro.

Não havia dúvidas que ficava no meio da natureza. Tão no meio que nunca mais chegávamos, era só árvores e caminhos de terra e lama.

No final da tarde avistámos a choupana, que não chegaria sequer ao patamar de uma cabana. Se não fosse tão tarde e não estivesse tão cansada teria dito para darmos meia-volta e desistirmos de ali ficar. Assim resolvi dar-lhe uma oportunidade. Entrámos e não tinha electricidade, mas tinha um frigorífico. Pensei que funcionasse com bateria, mas não, era mesmo para funcionar ligado a uma tomada que não existia. Assim servia de armário para conservas. Mas para ser positiva estava tanto frio ali que não precisávamos de frigorifico, bastaria colocar o que quiséssemos gelado lá fora, na janela ou encostado à porta. E o Paulo não conseguiu ligar a lareira. Disse que a madeira e os fósforos estavam húmidos. Deveríamos tê-los guardado no frigorífico.

Comemos as sandes que tínhamos levado e fomos dormir. Durante a noite, a escuridão pesava e  não vi estrelas no céu. Assim que consegui adormecer acordei em sobressalto. Alguém andava aos empurrões à porta. Não fomos abrir para descobrirmos quem era e fizemos bem, porque de manhã algo deixara marcas de garras na porta, talvez um urso.

Pelo menos com tanto frio dormimos bem agarradinhos.

Nos anos seguintes passei eu a tratar das férias e lá para casa arranjei um frigorífico parecido. Tinha muita arrumação.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 5º Tema: A fila...

redonda, 11.10.19

E eu que não gosto de filas. Nunca pensei que no “Depois” também houvesse uma fila…e uma fila que não anda!

À minha frente um senhor encasacado e com ar infeliz não parece aborrecido com o atraso, desconfio que saberá para onde vai e a ideia não o seduz. O Inferno será demasiado quente ou demasiado gelado.

E à nossa frente dez freiras pacientes, que às vezes até cantam hinos. Quando se preparam para iniciar nova cantoria, peço desculpa e resolvo descobrir porque é que a fila não anda. Vou-me desculpando à medida que avanço. Mais encasacados infelizes e freiras pacientes e a liderar a nossa fila um homem com um bigode pequeno que creio reconhecer…mas, não pode ser! Afinal não deveria ter morrido antes mesmo de eu nascer? Será um clone dele? Não, parece que é o verdadeiro. Conseguiu permanecer escondido, mas foi descoberto e teve de se juntar à fila. Há duas portas, mas não o querem aceitar. À frente de cada porta, um senhor barbudo e de vestido, e um encasacado vermelhusco com chifres. Dirijo-me a eles:  “Meus senhores, a fila tem de andar!” Olham‑me com severidade. Com esta iniciativa ainda vou é estragar as minhas hipóteses de encontrar guarida na primeira porta.

- “Se é mesmo ele, se há um depois, se há um sentido para o que sofremos e um reencontro, talvez seja possível o perdão. Eu não sou ninguém para perdoar, mas talvez possam perguntar aos que ele matou e estão lá dentro?”

As duas figuras escutaram o que eu disse. Retiram-se e fecham as portas, mas só por segundos. Quando regressam, dizem que lhe vão permitir a entrada e como os demais ele poderá escolher. Hitler não hesita e escolhe a Porta do Inferno.

Eu regresso ao meu lugar na fila, penso na escolha que ele fez e na que espero poder fazer quando chegar a minha vez.

 

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 4º Tema: A Beatriz disse que não. E agora?

redonda, 04.10.19

 A Beatriz disse que não. E agora?

Fez-se um grande silêncio. Ninguém dizia nada.

Não podia ser brincadeira. Não ali, não naquele sítio, naquela hora.

As parentes e amigas espremidas em vestidos de toilette, elevadas com sapatos pontiagudos, com maquilhagens e penteados caprichados, e os homens nos fatos novos abafados, nem se entre-olhavam e apenas uma mosca solitária zumbia, ou zombava deles todos.

Naquele silêncio pesado não passou despercebido o ranger da porta que se abria devagarinho e os passos que queria abafados do Zé que regressava, após ter ido fumar um cigarrinho.

Estava primeiro preocupado em não fazer barulho, mas depois apercebeu-se que algo de estranho se passava.

Estavam todos calados e parados até nas expressões meio perdidas e espantadas. Todos menos ela que nessa altura se virou para a audiência e com uma voz límpida e assertiva clamou para os presentes.: “Estou grávida e o pai do meu filho é ele” ia apontar para alguém, mas o Zé assustou-se de tal forma que caiu redondo no chão.

Os presentes agradeceram a distracção e rodearam-no. Alguém lhe desapertou o colarinho, ouviu-se: “ajudem-no”, “chamem um médico” Aproveitou a Beatriz para se escapulir com um dos convidados e o noivo desapareceu com outro. O Padre disse que assim não os casava quando era mais do que evidente para todos, que aqueles dois já não o quereriam.

O Zé recuperado e os demais, excepto a noiva e o convidado que ninguém sabia bem quem era, foram na mesma ao copo-de-água e houve como era hábito, danças, charutos e discursos num “casamento” que se tornou inesquecível”.