Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

dona-redonda

dona-redonda

Desafio de Escrita dos Pássaros, 12º Tema Aqueles Pássaros não se calam

redonda, 29.11.19

Aqueles pássaros não se calam

 

 

Algo de estranho se passava.

Mas não se apercebeu logo.

Chovia e queria era chegar depressa a casa.

Andava assim em passos largos, às vezes tortos, para contornar poças de água, ou afastar-se da berma, quando se apercebia da aproximação de mais um carro acelerado e descuidado, que na passagem projectaria água para os lados, num autêntico chuveiro, sujo e gelado.

Porque anoitecia, já passara a hora de ponta, e deixaram de passar carros, conseguiu ouvir melhor outros barulhos, menos absorventes e ruidosos

Eram sons familiares: o chilrear de pássaros.

Muitos pássaros.

Sons comuns na Primavera e Verão, mas estavam no meio do Inverno…

Procurou e localizou os sons. À sua frente, do lado direito, sobre o telhado de uma casa e nos fins de electricidade ou telefone. Eram às dezenas.

Mas não deviam ter emigrado?

Quando os viu, sentiu que também o viam.

Apeteceu-lhe dar meia-volta para não passar por eles. Lembrou-se do filme de Hitchcock. Forçou-se a continuar quando queria era dar meia volta e regressar a donde viera

Pareciam agora indiferentes à sua passagem, mas não se calavam.

Estava já perto do seu destino. Acelerou ainda mais os passos até passar a correr. Esbaforido entrou em casa e foi espreitar à janela.  

Os pássaros continuavam lá.

Se abrisse a janela, além do vento e chuva, iria ouvi-los, sem dúvida.

Foi então que como se obedecessem a ordens, qual exército disciplinado, se ergueram todos em voo. Dirigiam-se para onde estava. Pensou; o que faço? Não tenho tempo de fechar as portadas. Será que se vão projectar contra o vido? Deveria esconder-me num armário?

Em voo rasante passaram por ele.

Respirou aliviado. Deveria ser um esquadrão atrasado, mas que agora seguia para outras paragens.  Talvez se tivessem demorado mais porque se tinham perdido na conversa. Em vez de planos de viagem, teriam abraçado outros temas, como desafios de escrita, e humanos estranhos, como ele.

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 11º Tema: Um dia na vida de Spassky

redonda, 22.11.19

IMG_1858.JPG

IMG_1856.JPG

 

 

Acordo e saio para passeio matinal com humano ou humana a meu cargo. Adoro passear e quero sempre ir, mas não gosto lá muito quando chove.

No regresso levam-me para casa da avó porque vão trabalhar. Sei que ela é frágil e não pode levar-me a passear por isso em casa dela sou menos efusivo e farto-me de dormir. Ela tapa-me com uma mantinha.

Vêm-me buscar ao final do dia, às vezes humana traz a irmã (a tia, que está a escrever por mim) e  fico super entusiasmado quando os vejo, damos uma pequena volta ali perto e seguimos de carro para casa. Vou bem atento ao que se passa ao redor, e às vezes zango-me quando vejo algum dos meus inimigos na minha zona.

 A seguir como – comida de uma latinha, sempre pouca, poderia comer muito mais, e vamos passear. Aproveito para marcar território e socializar sobretudo com algumas cadelinhas. Ao jantar deles, peço, mas não me dão comida, só de vez em quando alguns biscoitos, poucos. Estou super atento para apanhar alguma coisa que possa cair ao chão, até guardanapos de papel, mas depois é uma luta para os conseguir comer.

 Percebo bem o que me dizem, mas normalmente gosto é de fazer a minha vontade, como seguir à frente nos passeios, e parar quando querem regressar, e posso até dificultar quando resolvem levar-me ao colo para casa, depende. Normalmente ganho muitas festas de todos, não percebo é porque não entendem que quero biscoitos quando fico a olhar fixamente para o lugar onde os guardam…

Desafio de Escrita dos Pássaros, 10º Tema: Já chegámos, já chegámos?

redonda, 15.11.19

- Já chegamos, já chegamos?

- Ainda não, mas não perguntaram ainda há pouco? Respondia pacientemente a minha mãe.

Olho pela janela. Sabia que ainda não tínhamos chegado, que faltava ainda muito, tanto! Uma das minhas irmãs dormia, a outra também parecia que ia adormecer, mas eu permanecia acordada (ao meu lado, a minha boneca Joaninha, que levava para todo o lado, e tinha inclusive uma pequena mala improvisada, com um pijama e dois vestidos: um azul feito pela minha avó e um com bolinhas amarelas, feito pela costureira de um retalho de tecido). Pela janela do lado direito via ora a estrada, ora os carros com que nos cruzávamos, pela do lado esquerdo, árvores, erva, monte. A paisagem ia mudando. Primeiro, muitos edifícios, depois só algumas casas, árvores altas e verdes, depois também rareavam as árvores, via mais erva e monte, espaçadas as oliveiras, e restos de incêndios, chagas castanhas e despidas no meio dos montes.

Os meus pais pareciam concentrados na viagem, o meu pai na condução, a minha mãe em mil e uma coisas para que tudo corresse bem.

Mais perto, sentíamos o cheiro das estevas – não havia ar condicionado, pelas janelas entreabertas entrava calor.

Sabia que quando chegássemos à aldeia, iria reencontrar os meus avós, alguns primos e primas que não reconhecia, e o meu pai iria rejuvenescer no papel de filho.

Por lá estava também a burrinha, que a minha irmã mais nova iria querer logo ver, os biscoitos em argola, o pão de trigo, a lareira, o chão da casa com tabuas compridas e não muito direitas, o silêncio à noite, e o cantar do galo de madrugada.

Queria hoje poder fazer essa viagem, o durante, enquanto não chegamos e o depois, vivo-o nas recordações.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 9º Tema: Numa ilha deserta

redonda, 08.11.19

 

Tive muito frio durante a noite. Só o estar tão cansado fez com que teimasse em dormir. Não queria acordar, apesar do frio. E então, pouco a pouco, senti o calor a chegar, mas também a luz, cada vez mais forte. Não pude adiar mais despertar. Abri os olhos e tive de os fechar logo a seguir. O sol pairava sobre mim. E sob mim, areia, grãos de areia que comecei a sentir como me picavam. Estava nu. Mas onde estava?

Não me lembrava de nada. A praia estendia-se infindável, areia branca, palmeiras e coqueiros paralelos à linha do mar, água azul verde em ondas suaves. Tinha caído num postal de algum lugar paradisíaco, mas não sabia como…

Nada via em redor, nada que fosse construído pelo homem, era só natureza, mar, vegetação, areia… e estava nu. Nu, num paraíso, qual Adão, mas sem Eva.

A última coisa que recordava era ter saído à noite para a despedida de solteiro do Pedro, mas a ideia era irmos para um Bar. Não estava prevista uma ilha e o noivo era ele. Nenhuma razão descobria para ser eu, naquela ilha deserta e sem roupa.

Enquanto pensava, levantei-me e consegui arranjar uma espécie de sunga com folhas. Mais apresentável fui à procura de algo ou alguém, ou de uma explicação.

Descobri que estava numa Ilha pequena e deserta. Consegui apanhar umas bananas e beber água numa ribeira, com peixes – deduzi que se a água era boa para os peixes também o seria para mim.

Depois juntei uns troncos, esfolei os dedos em duas pedrinhas e não consegui iniciar uma fogueira. Pensei que seria mais fácil. Devia sê-lo!

Quando quase desatinava, afinal já estava ali há quase uma hora, pelo menos desperto, e só tinha comido umas bananas, avistei um barquinho no mar. Nele vinham o Pedro e os outros.  Nunca poderia imaginar o que me contaram, mas isso ficará para um próximo capítulo, nesta história das minhas incríveis aventuras.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 8º Tema: Carta para a criança que fui

redonda, 01.11.19

 Carta para a criança que fui

Eu.jpg

Está-me cá a parecer que o melhor é não te dizer muito, mesmo quase nada, porque acho que até foste mais ou menos feliz, não quereria estragar isso.

O que é que eu te poderia dizer?

Para teres menos receio, ousares mais…mas depois ainda ousas demais, cais dentro de um buraco e não chegas a adolescente.

Abraça mais o presente e aqueles que estão aí contigo, mas sei que à tua maneira o estás a fazer. Lembro-me da intensidade com que vivia quase tudo, como do centro do universo um pequeno problema me poderia reduzir à minha real insignificância. Poderia dizer-te que tudo isso passará, não era assim tão mau, um dia não irás recordar nem metade desses dramas.

Talvez o único conselho que te poderia dar é: quando receberes de prenda aquele diário com chave, que ainda tenho por aqui, pensares um pouco melhor no que vais lá escrever, porque aquilo a nível dos temas está uma desgraça, e para teres cuidado com os erros, uma vergonha, afinal já tinhas dez anos, deverias ser capaz de escrever melhor (nem com o acordo ortográfico lá ias).

Pronto, seria só isto. Aproveita os bons momentos, vive-os, sê só um pouco mais corajosa se conseguires, e se quiseres escrever naquele Diário, esquece, ou adia  por um ano ou dois, ou cinco…