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dona-redonda

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CNEC 48/20 - 3/10 A Professora


redonda

 

Gémea da feiticeira da Branca Neve, não da bruxa, mas da rainha madrasta, na beleza e severidade. Não sorria, não revelava qualquer enternecimento pelas ervilhas a seu cargo. A sala dividida para a 1ª e para a 2ª classes, num Colégio de Padres, reguadas permitidas, e a ameaça de ser levado ao sério-severo Padre-director para os reincidentes impenitentes.

Não tive infantil, por minha culpa – com dois anos insistiu a Educadora que poderia ficar com a minha irmã de cinco. Desatei num choro mal me vi abandonada. Deixou‑me à porta para dar a aula e fechei-os à chave na sala. Um aluno herói teve de pular pela janela para os libertar. Na saída, a Educadora concordou com a minha mãe, eu era muito pequena.

Aos seis, estava entusiasmada com a primeira classe. Finalmente ia aprender a ler e a escrever: pá, pé, piu, pua, pipa, pópó, pai e papá, a tia, tua tia, titi, a tia tapa o pote.

Aventuras sucessivas e intensidade face ao hoje descolorido, mas serão mais fáceis os dias com menos variações.

No então, castigava a Professora cada erro do ditado com uma reguada. Na sala o Nuno triste levava às vezes vinte, o Mário sorridente, nenhuma.

Ensinou-me a Paula como escapar à hora da tabuada. Já sabia até à dos cinco, mas seria uma aventura. Era só preciso antes pedir para ir à casa de banho. Pedimos as duas, fugimos as duas. Enganámos a bruxa-feiticeira, mas lá fora, sozinhas, nada acontecia.

Talvez fosse só professora, rodeada de bruxinhos alunos, barulhentos, infantis, a repetirem os erros uns dos outros, ano após ano, monotonia e cinzentismo, não era o que esperara, feiticeira desencantada.

Com ela aprendi a escrever e a ler, primeiro as legendas na televisão, depois os livros, os cinco e os sete e todos os outros.

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CNEC 48/20 - 2/10 - Com o P.D.


redonda

 

 

O mundo estava a passar por uma pandemia e fora deliberado o isolamento social para conter a contaminação e adiar o surgimento de casos mais graves.

Os mais frágeis deveriam ficar em casa. Os demais, sem trabalhos na saúde ou na alimentação aí deveriam permanecer, saindo apenas para comprar alimentos.

Sara tinha reservas de comida e de papel higiénico, e estava em casa sem sair há três dias, quando pensou que deveria comprar enlatados.

No entanto, no seu T1 de trinta metros quadrados, faltava espaço para os guardar.

Calhou reparar então nas garrafas de vinho que o seu ex deixara para trás quando resolvera juntar-se à amante. Prometera-lhe que os viria buscar e ela não duvidara sabendo como ele acarinhava a sua coleção, o tempo que passava a olhar para as garrafas, sendo que só em ocasiões muito especiais, é que abria uma. Comprara para as guardar um armário especial onde ficariam muito bem latas de salsichas e feijão.

Ainda pensou em ligar-lhe, mas sabia qual seria a resposta e se ele atendesse. Iria adiar, não se atreveria a sair para vir buscar as garrafas. Seria melhor nem falar com ele. Custou-lhe abrir a primeira garrafa e despejar o seu conteúdo na banca. Continuou a fazê‑lo e talvez algum do álcool tivesse vindo preencher e desinfectar o ar à sua volta – cheirava muito a vinho. Resolveu provar um copinho de cada.

Abria, enchia o copinho, bebia-o, tentando comparar com o anterior, despejava o resto do conteúdo e passava para a garrafa seguinte. Era até divertido. Riu-se. Percebeu então que não estava sozinha. Bem de mansinho o Pato Donald tinha entrado na cozinha e sentara-se num banquinho ao seu lado. Ofereceu-lhe um copinho, contou-lhe como fora a sua personagem preferida. Riram os dois contentes com a companhia.

Resolveu deitar-se e adormeceu.

CNEC 48/20 - 1/10 - Um olhar


redonda

Eram quinze para a meia-noite, de um Domingo chuvoso, quando teve de sair. O seu cão Jolie já lhe dera dois ou três latidos de aviso.

Estava frio lá fora, mas andar aqueceu-o.

Já no regresso, o Jolie insistiu em que seguissem pela direita. Perto do Posto de Abastecimento reparou no casal junto a um carro preto, de faróis ligados. Ele enchia o depósito, ela próxima dele, imóvel. Não falavam. O Jolie, normalmente afável com todos, mesmo com estranhos, rosnou baixinho na direção do homem.

Só por acaso o seu olhar encontrou o dela e leu nele um pedido de ajuda.

Não sabia o que poderia fazer. Ele o Jolie estavam já os dois entradotes.  Fixou a matrícula, tentando decorá-la. Percebeu que atraíra a atenção do homem. Ele posicionara-se à frente da mulher, escondendo-a com o volume superior do seu corpo.

- Você quer arranjar problemas?

- Não senhor, não quero.

- Então, ponha-se a andar!

Algo lhe deu coragem para permanecer e responder-lhe:                        

- Mas a senhora vem comigo.

Tinha a mão direita enfiada no bolso do impermeável, agarrou a pequena lanterna que lá guardava e empunhou-a, fê-la visível como uma arma. Percebeu que o outro hesitava, até que agiu. Empurrou a mulher para cima dele. Meteu-se no carro e arrancou.

Quando a mulher foi empurrada na sua direção quase caíram os dois. Depois ela abraçou-se a ele a chorar. O carro era dela e estava a ser vítima de um assalto ou algo pior. “Salvou-me” disse ela. “Salvou-a”, confirmaram os agentes da polícia quando chegaram e identificaram o individuo como perigoso.

Nessa noite demorou menos a adormecer e comentou antes com o Jolie, “salvámo-la.”

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2.8 Foi tão bom não foi


redonda

Foi tão bom, não foi

 

Em tempo de recolhimento, quarentena, interrupção nas vidas, ruas vazias, à excepção de filas espaçadas de pessoas algumas de ar assustado ou com máscaras, à frente de mercados e farmácias, notícias e imagens assustadoras e tristes, se chegasse o fim, o que gostaria de lembrar porque foi bom, sem estar necessariamente por ordem:

- Viver com os meus pais e irmãs e avó, e sentir que gostavam de mim como eu gostava deles;

- Brincar (aqui podendo incluir também os jogos e o tempo da plasticina e de pintar, do triciclo e da bicicleta);

- Aprender a escrever e ler, como se também fosse um jogo, e tudo o mais que gostei de aprender na escola;

- Andar,

- Ver televisão, ouvir música, ir ao cinema e algumas vezes ao teatro, uma vez à ópera;

- Aprender e ser capaz de nadar;

- Explorar instrumentos musicais, conseguir tocar alguns, mesmo que mal, algumas danças de salão, tirar a carta de condução às vezes conduzir, pintar;

- Apaixonar-me e ser correspondida, namorar;

- Passear por Portugal, viajar para outros países;

- Escrever e ler;

- O meu trabalho, muitas vezes;

- Comida e começar a cozinhar;

- Estar com a família e amigos;

- Uma última alínea para o que não me ocorre agora, mas deveria estar aqui, como descobrir mundos novos;

desafio de escrita dos pássaros #2.7 O meu Elogio Fúnebre


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Elogio Fúnebre

 

 

Maria X morreu com a bonita idade de duzentos e noventa e três anos (quando já todos começavam a pensar que não havia maneira de o fazer) e não parecia fisicamente mais de quarenta (ou trinta e cinco, como perentoriamente afirmava).

 Já de cabeça (estava cada vez mais chata) gostava de recordar os “bons velhos tempos” em que todos tinham telemóvel e andavam de carro (e havia muita poluição) em vez de bicicleta.

A sua vida e existência foi importante, como para a aprovação recente da Eutanásia.

E teve uma boa morte, depois de ter viajado duas vezes à volta do mundo, tendo estado em quase tantos países como aqueles que existem – não podendo ir obviamente aos que já não existem, e também não querendo ir àqueles mais instáveis ou perigosos para os viajantes – plantou várias árvores, teve várias aventuras, descobriu o segredo da felicidade, da vida após a morte, e de todas as doenças, escreveu alguns livros, e depois dos duzentos e trinta, teve três filhos que a visitavam com frequência, e a acarinhavam (mas também só conviveram com ela menos anos e os últimos não muito perto.

Que repouse em paz.

 

Desafio dos pássaros 2.6 “oh não, um vírus outra vez!”


redonda

 “oh não, um vírus outra vez!”

 

 Já não me lembro muito bem de como foi o anterior, mas tenho quase a certeza absoluta que não foi tão alarmante como este está a ser.

Sinto a pairar sobre nós uma nuvem cinzenta cada vez maior e mais escura.

Primeiro estava na China e pareceu quase um filme, até pela rapidez anunciada e concretizada na construção de um Hospital.

Depois foi-se aproximando, Itália, Espanha, e chegou cá.

Invadiu os telejornais, os jornais, as revistas e as conversas. Discute-se sobre a linha de apoio, planos de contingência, hospitais esgotados, quarentenas voluntárias, enquanto crescem os casos confirmados – para já serão nove, e os casos suspeitos não validados.

Cancelam-se voos e viagens eventos são adiados.

Fala-se sobre a prevenção – ouvi dizer que beber muita água e chá de erva doce ajuda, mas ainda não fui comprar o chá. É importante lavar as mãos, desinfectar tudo com lixivia. Evitar espaços fechados com muitas pessoas, cumprimentos e proximidade, e tossir para os cotovelos. Ligar para a linha de apoio se tivermos febre alta, tosse e/ou dificuldade respiratória.

Sinto-me já ligeira e hipocondriacamente resfriada.

Com a minha sorte se apanho isto, será já quando não há quartos livres, ainda terei de ir para uma tenda improvisada, sem livros, e poderei passar a seguir para outro plano mais quente. O que não queria era contagiar ninguém.

Por isso espero que descubram depressa um remédio e uma vacina.