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dona-redonda

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Desafio de Escrita dos Pássaros, 14º Tema - Não nasci para isto

redonda, 13.12.19

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(a fotografia não tem nada a ver com  o tema mas pareceu-me que ficava aqui bem)

Não nasci para isto Isto de inscrever-me em desafios de escrita e postergar.

Li o email com o novo tema quando chegou. A recuperar de pouco antes ter escrito e enviado o anterior, pensei para mim mesma, tenho muito tempo.

Passou o fim-de-semana, passaram, segunda, terça, quarta, quinta e como é possível, já está a começar sexta. Para onde é que foi todo aquele tempo que tinha?

E não me ocorre nada ou o muito pouco que me ocorreu, escorreu do papel/ecrã do computador, quando por um micro-segundo adormeci.

Vai que dá tempo e escrevo amanhã. Posso acordar mais cedo (adivinho que tal não vai suceder, são quase 2 e ainda não me fui deitar). Posso não almoçar (também não me parece que não o vá fazer, para não andar depois a arrastar-me, e ainda que num atropelo, pelo menos um pão com queijo e um café).

Por isso, tenho de escrever alguma coisa agora:

 

- ALGUMA COISA

 

Pronto, perfeito. Com a grande vantagem de ser ainda muito esclarecedor, ao escrever um texto assim, não restará nenhuma dúvida, que não nasci para isto.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 13º Tema: Final Feliz ou Qual é o filme?

redonda, 06.12.19

Desafio 13 -  Final feliz ou Qual é o filme

 

 

Ela voltou atrás e salvou-o, na confusão são separados mas reencontram-se na água gelada, ele em cima de porta-prancha na qual flutuava, quer ceder-lhe o lugar, mas ela diz-lhe: "cabemos os dois".

E então, lado a lado, ou ele por cima e ela por baixo, ou ela por baixo e ele por cima, assim até mais quentes, aguentam-se os dois em cima da prancha, durante a noite, até chegar ajuda!

 

(depois casaram, tiveram sete filhos, zangaram-se e reconciliaram-se, foram muito felizes e nenhum dos dois voltou a fazer uma viagem de barco....)

(o filme ligeiramente diferente, teve grande impacto na mesma, com o my heart will gone a servir para outros que se separaram, mas não porque não se salvaram, apenas porque sim, e a cena no barco em que ele é o rei do mundo continuou a ser copiada mil uma vezes).

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 12º Tema Aqueles Pássaros não se calam

redonda, 29.11.19

Aqueles pássaros não se calam

 

 

Algo de estranho se passava.

Mas não se apercebeu logo.

Chovia e queria era chegar depressa a casa.

Andava assim em passos largos, às vezes tortos, para contornar poças de água, ou afastar-se da berma, quando se apercebia da aproximação de mais um carro acelerado e descuidado, que na passagem projectaria água para os lados, num autêntico chuveiro, sujo e gelado.

Porque anoitecia, já passara a hora de ponta, e deixaram de passar carros, conseguiu ouvir melhor outros barulhos, menos absorventes e ruidosos

Eram sons familiares: o chilrear de pássaros.

Muitos pássaros.

Sons comuns na Primavera e Verão, mas estavam no meio do Inverno…

Procurou e localizou os sons. À sua frente, do lado direito, sobre o telhado de uma casa e nos fins de electricidade ou telefone. Eram às dezenas.

Mas não deviam ter emigrado?

Quando os viu, sentiu que também o viam.

Apeteceu-lhe dar meia-volta para não passar por eles. Lembrou-se do filme de Hitchcock. Forçou-se a continuar quando queria era dar meia volta e regressar a donde viera

Pareciam agora indiferentes à sua passagem, mas não se calavam.

Estava já perto do seu destino. Acelerou ainda mais os passos até passar a correr. Esbaforido entrou em casa e foi espreitar à janela.  

Os pássaros continuavam lá.

Se abrisse a janela, além do vento e chuva, iria ouvi-los, sem dúvida.

Foi então que como se obedecessem a ordens, qual exército disciplinado, se ergueram todos em voo. Dirigiam-se para onde estava. Pensou; o que faço? Não tenho tempo de fechar as portadas. Será que se vão projectar contra o vido? Deveria esconder-me num armário?

Em voo rasante passaram por ele.

Respirou aliviado. Deveria ser um esquadrão atrasado, mas que agora seguia para outras paragens.  Talvez se tivessem demorado mais porque se tinham perdido na conversa. Em vez de planos de viagem, teriam abraçado outros temas, como desafios de escrita, e humanos estranhos, como ele.

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 11º Tema: Um dia na vida de Spassky

redonda, 22.11.19

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Acordo e saio para passeio matinal com humano ou humana a meu cargo. Adoro passear e quero sempre ir, mas não gosto lá muito quando chove.

No regresso levam-me para casa da avó porque vão trabalhar. Sei que ela é frágil e não pode levar-me a passear por isso em casa dela sou menos efusivo e farto-me de dormir. Ela tapa-me com uma mantinha.

Vêm-me buscar ao final do dia, às vezes humana traz a irmã (a tia, que está a escrever por mim) e  fico super entusiasmado quando os vejo, damos uma pequena volta ali perto e seguimos de carro para casa. Vou bem atento ao que se passa ao redor, e às vezes zango-me quando vejo algum dos meus inimigos na minha zona.

 A seguir como – comida de uma latinha, sempre pouca, poderia comer muito mais, e vamos passear. Aproveito para marcar território e socializar sobretudo com algumas cadelinhas. Ao jantar deles, peço, mas não me dão comida, só de vez em quando alguns biscoitos, poucos. Estou super atento para apanhar alguma coisa que possa cair ao chão, até guardanapos de papel, mas depois é uma luta para os conseguir comer.

 Percebo bem o que me dizem, mas normalmente gosto é de fazer a minha vontade, como seguir à frente nos passeios, e parar quando querem regressar, e posso até dificultar quando resolvem levar-me ao colo para casa, depende. Normalmente ganho muitas festas de todos, não percebo é porque não entendem que quero biscoitos quando fico a olhar fixamente para o lugar onde os guardam…

Desafio de Escrita dos Pássaros, 10º Tema: Já chegámos, já chegámos?

redonda, 15.11.19

- Já chegamos, já chegamos?

- Ainda não, mas não perguntaram ainda há pouco? Respondia pacientemente a minha mãe.

Olho pela janela. Sabia que ainda não tínhamos chegado, que faltava ainda muito, tanto! Uma das minhas irmãs dormia, a outra também parecia que ia adormecer, mas eu permanecia acordada (ao meu lado, a minha boneca Joaninha, que levava para todo o lado, e tinha inclusive uma pequena mala improvisada, com um pijama e dois vestidos: um azul feito pela minha avó e um com bolinhas amarelas, feito pela costureira de um retalho de tecido). Pela janela do lado direito via ora a estrada, ora os carros com que nos cruzávamos, pela do lado esquerdo, árvores, erva, monte. A paisagem ia mudando. Primeiro, muitos edifícios, depois só algumas casas, árvores altas e verdes, depois também rareavam as árvores, via mais erva e monte, espaçadas as oliveiras, e restos de incêndios, chagas castanhas e despidas no meio dos montes.

Os meus pais pareciam concentrados na viagem, o meu pai na condução, a minha mãe em mil e uma coisas para que tudo corresse bem.

Mais perto, sentíamos o cheiro das estevas – não havia ar condicionado, pelas janelas entreabertas entrava calor.

Sabia que quando chegássemos à aldeia, iria reencontrar os meus avós, alguns primos e primas que não reconhecia, e o meu pai iria rejuvenescer no papel de filho.

Por lá estava também a burrinha, que a minha irmã mais nova iria querer logo ver, os biscoitos em argola, o pão de trigo, a lareira, o chão da casa com tabuas compridas e não muito direitas, o silêncio à noite, e o cantar do galo de madrugada.

Queria hoje poder fazer essa viagem, o durante, enquanto não chegamos e o depois, vivo-o nas recordações.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 9º Tema: Numa ilha deserta

redonda, 08.11.19

 

Tive muito frio durante a noite. Só o estar tão cansado fez com que teimasse em dormir. Não queria acordar, apesar do frio. E então, pouco a pouco, senti o calor a chegar, mas também a luz, cada vez mais forte. Não pude adiar mais despertar. Abri os olhos e tive de os fechar logo a seguir. O sol pairava sobre mim. E sob mim, areia, grãos de areia que comecei a sentir como me picavam. Estava nu. Mas onde estava?

Não me lembrava de nada. A praia estendia-se infindável, areia branca, palmeiras e coqueiros paralelos à linha do mar, água azul verde em ondas suaves. Tinha caído num postal de algum lugar paradisíaco, mas não sabia como…

Nada via em redor, nada que fosse construído pelo homem, era só natureza, mar, vegetação, areia… e estava nu. Nu, num paraíso, qual Adão, mas sem Eva.

A última coisa que recordava era ter saído à noite para a despedida de solteiro do Pedro, mas a ideia era irmos para um Bar. Não estava prevista uma ilha e o noivo era ele. Nenhuma razão descobria para ser eu, naquela ilha deserta e sem roupa.

Enquanto pensava, levantei-me e consegui arranjar uma espécie de sunga com folhas. Mais apresentável fui à procura de algo ou alguém, ou de uma explicação.

Descobri que estava numa Ilha pequena e deserta. Consegui apanhar umas bananas e beber água numa ribeira, com peixes – deduzi que se a água era boa para os peixes também o seria para mim.

Depois juntei uns troncos, esfolei os dedos em duas pedrinhas e não consegui iniciar uma fogueira. Pensei que seria mais fácil. Devia sê-lo!

Quando quase desatinava, afinal já estava ali há quase uma hora, pelo menos desperto, e só tinha comido umas bananas, avistei um barquinho no mar. Nele vinham o Pedro e os outros.  Nunca poderia imaginar o que me contaram, mas isso ficará para um próximo capítulo, nesta história das minhas incríveis aventuras.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 8º Tema: Carta para a criança que fui

redonda, 01.11.19

 Carta para a criança que fui

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Está-me cá a parecer que o melhor é não te dizer muito, mesmo quase nada, porque acho que até foste mais ou menos feliz, não quereria estragar isso.

O que é que eu te poderia dizer?

Para teres menos receio, ousares mais…mas depois ainda ousas demais, cais dentro de um buraco e não chegas a adolescente.

Abraça mais o presente e aqueles que estão aí contigo, mas sei que à tua maneira o estás a fazer. Lembro-me da intensidade com que vivia quase tudo, como do centro do universo um pequeno problema me poderia reduzir à minha real insignificância. Poderia dizer-te que tudo isso passará, não era assim tão mau, um dia não irás recordar nem metade desses dramas.

Talvez o único conselho que te poderia dar é: quando receberes de prenda aquele diário com chave, que ainda tenho por aqui, pensares um pouco melhor no que vais lá escrever, porque aquilo a nível dos temas está uma desgraça, e para teres cuidado com os erros, uma vergonha, afinal já tinhas dez anos, deverias ser capaz de escrever melhor (nem com o acordo ortográfico lá ias).

Pronto, seria só isto. Aproveita os bons momentos, vive-os, sê só um pouco mais corajosa se conseguires, e se quiseres escrever naquele Diário, esquece, ou adia  por um ano ou dois, ou cinco…

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 7º Tema - Máscara de compota

redonda, 25.10.19

A Constança precisava duma máscara capilar e veio ter comigo porque sabia que eu andava a vender qualquer coisa.

Eu disse-lhe: “Constança, o meu patrão só quer que eu venda compota de abóbora com amêndoa.

E ela respondeu-me: “Está bem”.

Foi o inicio de uma bela amizade porque clientes assim não são fáceis de encontrar.

Ela perguntou-me o que achava de ela usar a compota de abóbora com amêndoa como mascara capilar.

Lembrei-me da coca-cola que era para ser um xarope, e disse-lhe para ir em frente.”

E ela foi.

Não resultou assim muito bem, o cabelo ficou um bocado pegajoso, mas pelo menos cheirava muito bem a abóbora e a amêndoa.

Como agora somos amigas e já era hora, fomos almoçar juntas. Não sei bem porquê mas apeteceu-nos às duas sopa de abóbora e tarte de amêndoa.

Contei-lhe do Desafio dos Pássaros e ela ficou muito interessada, as duas vamos agora aguardar para ler o que foi escrito pelos desafiados…

Tema 6 - O amor, uma cabana...e um frigorífico

redonda, 18.10.19

 

 

A nossa primeira viagem não foi bem o que estava à espera.

O Paulo vendeu-me tudo como um sonho, os dois e uma choupana, no meio da natureza…que mais poderíamos desejar?

Eu que andava meio desconfiada que ele queria desviar os nossos subsídios de férias para o televisor de ecrã panorâmico de não sei quantas polegadas, “assim vejo a bola em casa, fofa”, e “está em promoção, é uma oportunidade única”, até fiquei aliviada. Afinal sempre íamos ter férias. Burra. Mas que férias?!

Seguimos para lá no jipe do avô dele, que não estava lá muito bem e não durou muito depois, o jipe, claro.

Não havia dúvidas que ficava no meio da natureza. Tão no meio que nunca mais chegávamos, era só árvores e caminhos de terra e lama.

No final da tarde avistámos a choupana, que não chegaria sequer ao patamar de uma cabana. Se não fosse tão tarde e não estivesse tão cansada teria dito para darmos meia-volta e desistirmos de ali ficar. Assim resolvi dar-lhe uma oportunidade. Entrámos e não tinha electricidade, mas tinha um frigorífico. Pensei que funcionasse com bateria, mas não, era mesmo para funcionar ligado a uma tomada que não existia. Assim servia de armário para conservas. Mas para ser positiva estava tanto frio ali que não precisávamos de frigorifico, bastaria colocar o que quiséssemos gelado lá fora, na janela ou encostado à porta. E o Paulo não conseguiu ligar a lareira. Disse que a madeira e os fósforos estavam húmidos. Deveríamos tê-los guardado no frigorífico.

Comemos as sandes que tínhamos levado e fomos dormir. Durante a noite, a escuridão pesava e  não vi estrelas no céu. Assim que consegui adormecer acordei em sobressalto. Alguém andava aos empurrões à porta. Não fomos abrir para descobrirmos quem era e fizemos bem, porque de manhã algo deixara marcas de garras na porta, talvez um urso.

Pelo menos com tanto frio dormimos bem agarradinhos.

Nos anos seguintes passei eu a tratar das férias e lá para casa arranjei um frigorífico parecido. Tinha muita arrumação.

Desafio de Escrita dos Pássaros, 5º Tema: A fila...

redonda, 11.10.19

E eu que não gosto de filas. Nunca pensei que no “Depois” também houvesse uma fila…e uma fila que não anda!

À minha frente um senhor encasacado e com ar infeliz não parece aborrecido com o atraso, desconfio que saberá para onde vai e a ideia não o seduz. O Inferno será demasiado quente ou demasiado gelado.

E à nossa frente dez freiras pacientes, que às vezes até cantam hinos. Quando se preparam para iniciar nova cantoria, peço desculpa e resolvo descobrir porque é que a fila não anda. Vou-me desculpando à medida que avanço. Mais encasacados infelizes e freiras pacientes e a liderar a nossa fila um homem com um bigode pequeno que creio reconhecer…mas, não pode ser! Afinal não deveria ter morrido antes mesmo de eu nascer? Será um clone dele? Não, parece que é o verdadeiro. Conseguiu permanecer escondido, mas foi descoberto e teve de se juntar à fila. Há duas portas, mas não o querem aceitar. À frente de cada porta, um senhor barbudo e de vestido, e um encasacado vermelhusco com chifres. Dirijo-me a eles:  “Meus senhores, a fila tem de andar!” Olham‑me com severidade. Com esta iniciativa ainda vou é estragar as minhas hipóteses de encontrar guarida na primeira porta.

- “Se é mesmo ele, se há um depois, se há um sentido para o que sofremos e um reencontro, talvez seja possível o perdão. Eu não sou ninguém para perdoar, mas talvez possam perguntar aos que ele matou e estão lá dentro?”

As duas figuras escutaram o que eu disse. Retiram-se e fecham as portas, mas só por segundos. Quando regressam, dizem que lhe vão permitir a entrada e como os demais ele poderá escolher. Hitler não hesita e escolhe a Porta do Inferno.

Eu regresso ao meu lugar na fila, penso na escolha que ele fez e na que espero poder fazer quando chegar a minha vez.

 

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 4º Tema: A Beatriz disse que não. E agora?

redonda, 04.10.19

 A Beatriz disse que não. E agora?

Fez-se um grande silêncio. Ninguém dizia nada.

Não podia ser brincadeira. Não ali, não naquele sítio, naquela hora.

As parentes e amigas espremidas em vestidos de toilette, elevadas com sapatos pontiagudos, com maquilhagens e penteados caprichados, e os homens nos fatos novos abafados, nem se entre-olhavam e apenas uma mosca solitária zumbia, ou zombava deles todos.

Naquele silêncio pesado não passou despercebido o ranger da porta que se abria devagarinho e os passos que queria abafados do Zé que regressava, após ter ido fumar um cigarrinho.

Estava primeiro preocupado em não fazer barulho, mas depois apercebeu-se que algo de estranho se passava.

Estavam todos calados e parados até nas expressões meio perdidas e espantadas. Todos menos ela que nessa altura se virou para a audiência e com uma voz límpida e assertiva clamou para os presentes.: “Estou grávida e o pai do meu filho é ele” ia apontar para alguém, mas o Zé assustou-se de tal forma que caiu redondo no chão.

Os presentes agradeceram a distracção e rodearam-no. Alguém lhe desapertou o colarinho, ouviu-se: “ajudem-no”, “chamem um médico” Aproveitou a Beatriz para se escapulir com um dos convidados e o noivo desapareceu com outro. O Padre disse que assim não os casava quando era mais do que evidente para todos, que aqueles dois já não o quereriam.

O Zé recuperado e os demais, excepto a noiva e o convidado que ninguém sabia bem quem era, foram na mesma ao copo-de-água e houve como era hábito, danças, charutos e discursos num “casamento” que se tornou inesquecível”.

Desafio de escrita dos pássaros #3 Uma aventura ou momento marcante

redonda, 27.09.19

Quando a minha avó morreu, a minha mãe teve de tratar de tudo para entregar a casa ao senhorio. Um apartamento num prédio na Av. Duque d’Avila que já foi deitado abaixo.

Nessa altura fizemos várias viagens a Lisboa, de comboio ou de camionete.

Para a minha mãe deve ter sido muito difícil e triste, para mim, havia algo de aventura e a morte não era ainda bem real.

Em Lisboa alguns taxistas suscitaram o problema mas aceitaram levar-nos aos cinco, o meu pai à frente e atrás a minha mãe, muito elegante, e as três filhas, a minha irmã mais velha com catorze anos, e eu e a minha irmã mais nova com onze e nove anos, ainda bem miúdas e magrizelas.

Nos Mercedes Táxi cabíamos perfeitamente.

Numa noite em que regressámos de camionete esperamos muito tempo até chegar um táxi e aqui, no Porto, o motorista foi peremptório, não nos levava aos cinco.

 O meu pai disse então que iria a pé, até porque tendo levado tanto tempo até chegar um táxi, não faria muito sentido ficar o mesmo tempo ou mais à espera do próximo.

A minha mãe não queria que ele ficasse sozinho, mas com três filhas e as malas, não via como irmos todos a pé.

Aí, eu disse que ia com ele. O táxi afastou-se com a minha mãe, as minhas irmãs e as malas e nós iniciámos o passeio.

Era bem tarde e não se via ninguém pelas ruas, mas não senti receio, dei a mão ao meu pai, tentei acompanhar os seus passos e conversámos até chegarmos a casa.

Lá havia luz e a minha mãe tinha feito torradas e café com leite para comermos.

Senti-me feliz por ver que a minha mãe tinha gostado que o meu pai não fosse sozinho, ter conseguido acompanhar os seus passos e estarmos depois todos juntos, em casa, a cearmos as torradas e o café com leite.

Desafio de Escrita dos Pássaros # 2º Tema: O Amor e um estalo

redonda, 20.09.19

Tema 2 - O amor e um estalo ou quem se ama, pica-se.

Conheceram-se no casamento de amigos comuns, ficaram na mesma mesa e detestaram-se. Ele achava-se engraçado, ela quase que lhe deu um estalo. A partir daí a aversão foi recíproca.

Com o correr da noite beberam além da conta e acabaram a passar a noite juntos.

Ela despertou primeiro e saiu de mansinho, antes que ele acordasse, pronta a esquecer o mau passo, sem se lembrar bem se fora mau ou bom. Ele acordou enquanto ela se vestia e fingiu que ainda dormia. Continuavam em sintonia. Primeiro odiaram‑se, e em seguida, queriam era ambos esquecer aquela passagem da noite.

Só que depois veio ela a descobrir que apesar do endométrio, e de três médicos lhe terem garantido que não podia ter filhos, e que mesmo com inseminação artificial seria difícil, senão impossível, estava grávida.

Não era o pai que escolheria, mas nem pensar em interromper a gravidez.

Quando lhe contou, ele levou um susto tão grande que nem conseguiu esboçar um sorriso amarelo e saiu-se com a frase infeliz: “tens a certeza que é meu?”.

Era, como com exames de DNA ela fez questão de lhe provar.

Reencontraram-se depois só a seguir ao parto e apaixonaram-se os dois pelo bebe.

Ele queria ver o filho crescer, ela começou a sentir-se grata pela ajuda e companhia. Afinal ele não era assim tão odioso, às vezes até conseguia ser querido. Ele espantou-se como é que ela sendo mãe para passar noites acordadas a tomar conta do filho, conseguia depois parecer tão doce e bonita.

E depois?

Juntaram-se e tiveram mais um filho. De vez em quando ainda se picam, mas a brincar e sem estalos, por quem ama, não agride, antes protege e cuida.

 

 

Desafio de Escrita dos Pássaros, 1º Tema: Problemas, só problemas

redonda, 16.09.19

 

Eu vou trabalhar, como, durmo, às vezes brinco e rio, sou capaz de gostar dos que me são próximos e de actos de gentileza para com eles e para com alguns estranhos. Não estou deprimida, mas passou a fazer parte de mim esta tristeza. Marca-me a saudade, a falta dos que já cá não estão. Preciso de acreditar que há um depois, mas por vezes, não consigo. Quando olho para trás, queria até os momentos de problemas mais sérios e graves quando os que me faltam, estavam ainda comigo.

Este é um texto mais livre sobre problemas e o que me trouxeram os anos. Sei que a vida acontece e os problemas, muitos deles, passam, e surgem outros. Passa o bom e o mau. Por isso o que tento é não juntar todos os problemas, pegar no primeiro que aparece e tratar de o resolver, ou, se não puder, passar ao seguinte, e tentar aproveitar nos momentos o que há de bom.


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